A roupa de linho branco

A roupa de linho branco

21/08/2020 0 Por Cris Freitas

No princípio de todas as coisas havia um reino feliz e próspero no qual reinavam juntos o Rei, o Príncipe e o Conselheiro, em uma unidade perfeita, chamada de a Triarquia. Os três haviam criado para si mesmos um povo especial, que lá vivia. Homens e mulheres, adultos e crianças foram feitos para viverem em união entre si e com os seus criadores. E não apenas isso, a Triarquia desejava proporcionar a este povo a alegria infinita que eles mesmos desfrutavam entre si e transmitir a todos do reino os atributos e virtudes que os três possuíam. Havia paz e harmonia. As pessoas viviam muito bem porque, na presença da Triarquia, todos os recursos necessários à vida eram acessíveis e inesgotáveis.

O reino se constituía de uma única e grande cidade, a qual era cercada por um muro alto, e ali o povo desfrutava de uma tranquilidade sem igual. Havia árvores em abundância e flores com perfumes tão deliciosos de fazer sonhar. Todos gozavam de plena saúde e nunca haviam conhecido doença alguma. As casas eram lindas, ornamentadas com ouro e pedras preciosas. As vestimentas feitas do mais fino tecido. Todos se adornavam com colares, braceletes e anéis de ouro. Os alimentos eram extremamente saborosos e não havia falta de nada. Tudo era concedido gratuitamente a quem desejasse.

O Rei amava profundamente cada pessoa que ali vivia, desde o menor até o maior. Ele alegrava-se em passear no meio deles, para saber como estavam e demonstrar-lhes o seu amor. E cada um que ali vivia tinha a mais profunda comunhão com o seu Rei e livre acesso a ele todos os dias de suas vidas.

Todo o povo havia recebido do Rei, do Príncipe e do Conselheiro uma característica que lhes era inerente, suas peles eram alvas como a neve, sem mácula nenhuma. Além da pele, todos os habitantes do reino possuíam roupas do mais puro e branco linho exatamente como as da Triarquia. As pessoas podiam fazer tudo o que era disponível a elas na cidade que nada lhes macularia a brancura da pele ou lhes sujaria as roupas. Sabiam que só poderiam estar na presença do Rei e ter comunhão com ele devido a esta condição, pois um rei cândido, só poderia ter comunhão com quem assim também fosse.

Qualquer um poderia desfrutar de todas as coisas que havia no reino, exceto por uma única restrição imposta pela Triarquia. Bem no centro da cidade, vários rubis, brilhantes como a escarlate, repousavam sobre uma rocha. Era a única pedra preciosa que não deveria ser utilizada para nada, por ninguém, e nem sequer poderia ser tocada. Mesmo admirando muito a beleza destas gemas, as pessoas contentavam-se em possuir as demais pedras que eram igualmente belas e permitidas. O Rei advertira ao povo de que, se alguém desobedecesse e tomasse um rubi, certamente todos sofreriam.

Certo dia, porém, uma jovem que por ali passava, ateve-se por um momento a contemplar os rubis. Um homem carrasco, que, sorrateiramente, penetrara no reino, havia se escondido atrás da rocha, e, notando o interesse da moça, começou a instigá-la com sua voz gutural, dizendo:

-Você ficaria linda com mais esta pedra, seria mais bonita do que todos aqui, até mesmo do que o Rei. Pegue uma, apenas uma.

Quanto mais ela olhava a pedra, mais linda esta lhe parecia. Seus olhos começaram a brilhar mais intensamente refletindo o desejo que crescia em seu coração de tomá-la. “Ficaria perfeita em meu bracelete”, ela pensou. Então, subitamente, vencida por sua vontade, ignorando toda a proibição, ela tomou para si uma pedra encaixando-a em sua joia. O carrasco desapareceu, com um sorriso maligno.

Neste exato momento, as roupas brancas da jovem foram tornando-se trapos sujos e velhos. Ela apavorou-se. Uma mulher que ali passava, foi até ela para tentar ajudá-la e, quando tocou no braço da moça, imediatamente suas roupas envelheceram também. Um grupo de pessoas se aproximou e, no instante em que as duas mulheres em trapos olharam para eles, o mesmo mal acometeu, assustadoramente, a todos. Dessa forma, pelo toque ou apenas pelo olhar, a mesma condição foi sendo transmitida rapidamente de um a um, até que todos no reino foram contagiados tornando-se imundos. Agora, somente o Rei, o Príncipe e o Conselheiro tinham suas roupas brancas como a neve.

O Rei, entristecido, mas ao mesmo tempo irado pela desobediência, pronunciou-se com voz firme e profunda, dizendo:

– Meu povo, mesmo amando a cada um de vocês, tornou-se agora impossível permanecerem em comunhão comigo, pois a condição foi rompida e agora todos estão destituídos da brancura necessária para estar em minha presença. Só resta-me uma coisa a fazer. Bani-los!

E, então, aquele povo, devido à sua transgressão, foi lançado para fora da cidade. Quando a última pessoa saiu, os portões foram fechados atrás deles e trancafiados para que ninguém voltasse. Tiveram que deixar tudo para traz, levando apenas a roupa suja do corpo. Agora estavam condenados a viver, para sempre, separados da tão amada Triarquia.

Com o passar dos dias, o povo encontrou uma região plana e árida e ali construiu para si uma nova cidade, porém nesta não havia paz nem harmonia. Pessoas disputavam entre si para saber quem ficaria com a melhor casa ou alimento, quem seria o líder, ou simplesmente quem trabalharia mais ou menos. A cada atitude destas, como mentiras, trapaças, ofensas e outras, pequenas manchas iam surgindo em suas peles e logo, ninguém mais possuía a pele totalmente branca. Doenças começaram a aparecer e o sofrimento tomou lugar na vida de cada um.

Para a aflição de todos, foi lançado um edito real, uma escrito de dívida anexado ao principal poste, no centro da cidade onde agora viviam, o qual dizia:

“Para que haja justiça frente à transgressão cometida cada um deve comparecer, ao dia marcado, diante da grande prisão na qual se encontra o carrasco. Lá estando, precisa pagar a ele por todas as manchas em suas peles, do contrário será agrilhoado para sempre no mais frio e escuro cárcere, sofrendo torturas eternas. O único preço aceitável para a absolvição: uma roupa de linho puro e branco.”

Todos, atônitos, perceberam que, diante de tal exigência, a condenação era certa, pois ninguém mais possuía tal roupa e não havia como consegui-la!

Anos se passaram e muitos foram sendo confinados à prisão. A dívida era impagável.

Foi então que, dentro do palácio da cidade real, o Rei e o Príncipe entreolharam-se. Chegara o momento. Cada um sabia o que deveria ser feito. O Príncipe desceu do trono e o Rei despiu-o de sua túnica, vestindo-o de trapos velhos e sujos. O Pai abraçou o Filho e disse-lhe:

-Você é meu Filho amado em quem tenho muito prazer!

O Príncipe caminhou resoluto e atravessou os portões, deixando para trás os muros da cidade real. Seguiu, então, em direção à cidade onde agora o seu povo vivia.

                Ao chegar lá, disse que ele era o Príncipe e proclamava:

– Trago-vos boas notícias de meu Pai! Ele ama muito o seu povo e por isso me enviou para salvá-los da condenação que pesa sobre cada um de vocês.

O Príncipe anunciava que no novo reino que seu Pai estava preparando iriam viver aqueles que acreditassem nesta boa notícia. Muitos ali, vendo-o, diziam entre si que era realmente o Filho do Rei que estava lá, semelhante a eles em suas roupas sujas, mas sem mancha nenhuma em sua pele. Outros duvidaram que pudesse ser ele, pois suas vestes não eram dignas de um príncipe, insultavam-no e o confrontavam. Chegaram até a maltratá-lo para que negasse que era o Príncipe, mas ele mesmo sofrendo afirmava sua filiação.

                Em meio às conspirações e críticas, o Príncipe permaneceu um tempo entre eles falando repetidamente da necessidade de se arrependerem de seu mau comportamento. E então, ao fim deste tempo, ele pronunciou-se:

– É chegada a minha hora de comparecer à grande prisão. Foi para esse momento que eu vim!

Porém, antes de ir até lá pediu para que todos se aproximassem e o tocassem. Neste momento algo maravilhoso aconteceu. Conforme o tocavam, suas manchas iam sendo transferidas para a pele branca do príncipe. Logo ele carregava todas as máculas de cada um que ali vivia.

O príncipe dirigiu-se à prisão, em angústia e dor, pois carregava sobre si a imensidão de todas as transgressões dos homens. Ele sofria amargamente antevendo o seu fim. Vendo-o daquela forma, o carrasco riu em deboche, colocou-o em grilhões e infringiu a ele torturas dez vezes pior do que o de costume. Dizia que se ele era mesmo filho do Rei, deveria salvar-se a si mesmo. Até aquele dia, o carrasco estava invicto.

Foi então que, passados três dias, o incrível aconteceu. O Rei, coberto de esplendor, atravessou a cidade dos homens e veio até a prisão. O carrasco estremeceu ao vê-lo e apavorou-se quando ele colocou um embrulho em sua frente. Tremendo, começou a abri-lo. Quando viu o conteúdo teve um sobressalto. Para sua completa derrota, diante dele estava nada menos do que uma roupa de linho puro e branco. Era a roupa do Príncipe. Neste exato momento a terra tremeu e os grilhões que o prendiam se romperam. De dentro da prisão, o Príncipe surgiu despido dos trapos, suas vestes e pele estavam alvas como a neve.

Ele retornou à cidade dos homens e dirigiu-se até o poste principal. Tomou em suas mãos o escrito da dívida rasgando-o completamente. Ele tinha pagado o preço por todos. Agora não havia mais condenação para aqueles que aceitassem o sacrifício que ele fizera. Por alguns dias mais, o Príncipe andou entre o povo, para que testemunhassem sua vitória. Disse que iria para o reino de seu Pai para preparar para eles um novo e maravilhoso lugar e, um dia, voltaria para buscá-los. Alguns dias depois, diante de muitas testemunhas, ele voltou para a cidade real.

Ao chegar lá, o Conselheiro olhou para ele. Agora era a sua parte. Desceu até a cidade dos homens e passou a andar entre eles lembrando-os do que havia acontecido. Sobre todos os que reconheceram e aceitaram o sacrifício que o Príncipe havia feito por eles, o Conselheiro colocou um manto de linho branco. Explicou que podiam novamente ter comunhão com o Rei, através do próprio Conselheiro, pois o Rei agora olhava para a roupa branca e não para os trapos por baixo dela. Disse ainda, que manchas continuariam surgindo em suas peles a cada atitude de transgressão, mas se houvesse arrependimento sincero e confissão pelo erro, no mesmo instante sua pele seria limpa novamente. Ele mesmo os ajudaria, convencendo-os a cada delito, e intercedendo por eles diante do Rei.

O Conselheiro também deu a cada um deles um brasão que serviria de garantia de que um dia eles viveriam novamente com a Triarquia na nova cidade que seria criada, como o Príncipe prometera. Dizia-lhes que quando este dia chegasse eles seriam despidos completamente dos trapos imundos e velhos e nenhuma mancha surgiria mais em suas peles. Viveriam eternamente na presença do Rei. Enquanto isso não acontecesse, ele, o Conselheiro estaria ali, junto deles, ajudando-os em tudo o que precisassem para conhecerem mais ao Rei e tornarem-se mais parecidos com o Príncipe em seu caráter imaculado.

E assim, vivem, ainda, estes homens que receberam a graça maravilhosa e totalmente imerecida de serem salvos da condenação eterna. Seguem crescendo em intimidade com o Conselheiro e em seus corações cresce uma ardente expectativa do dia em que o Príncipe voltará para buscá-los e levá-los nova cidade real. Lá não haverá mais tristeza e nem dor, eles serão coroados de alegria eterna e viverão eternamente com a tão amada Triarquia.

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